16.11.08

Pinhole e natureza


Calçada medieval, câmara pinhole artesanal, 50'' de exposição.

Fotografar espaços urbanos, controlando a luz reflectida pelas fachadas dos edifícios, as altas e as baixas luzes com fortes contrastes de intensidade, é totalmente diferente de fotografar na natureza. Os tons "pastel" e as superfícies sem brilho que caracterizam a generalidade das plantas (arbustos, árvores) e das rochas, constituem uma armadilha para a avaliação fotométrica do nosso olhar. As árvores, por estarem num plano mais elevado que nós, são fotografadas quase sempre em contra-luz, criando largas manchas escuras na imagem sem qualquer informação visual.
A fotografia estenopeica de natureza precisa (pelo menos) três vezes mais tempo de exposição que a fotografia urbana, em particular se pensarmos que a melhor altura do dia para fotografar a natureza é quando o Sol está mais baixo - onde o recorte das formas e a distinção das cores (mesmo a preto e branco) são mais evidentes.

imagem: Rui Cambraia

14.11.08

Pinhole sem rede II


Penha, Portalegre
, câmara pinhole
artesanal, 30'' de exposição.

As câmaras artesanais andam sempre carregadas com papel fotográfico. Mesmo no fim-de-semana, sem acesso ao laboratório fotográfico, as câmaras acompanham-nos nos passeios para onde quer que seja, na condição de serem utilizadas. As imagens serão reveladas na primeira oportunidade da semana seguinte...!
O retorno à fotografia analógica traz consigo um fenómeno interessante: aquilo que outrora foi considerado (ou vivido como) um aspecto condicionante e desagradável, que é a impossibilidade de se ver a fotografia imediatamente - de ser necessário esperar horas ou dias para se receber as imagens -, é agora um prazer. A expectativa de ver a fotografia constitui hoje uma vertente lúdica associada à actividade fotográfica analógica, e especialmente à fotografia pinhole.



imagens: Rui Cambraia

6.11.08

Pinhole e nitidez

... muito cedo pela manhã, a caminho do trabalho...


Alagoa, câmara pinhole
artesanal, 60'' de exposição.

A fotografia pinhole, pelas características técnicas e estéticas de que se reveste, não obedece a qualquer estilo ou modelo formal de imagem. A nitidez, que Cartier-Bresson caracterizou como um "gosto desmedido" que traduz a ideia limitada que algumas pessoas têm da técnica fotográfica (1), por exemplo, não constitui um imperativo na fotografia estenopeica. Pelo contrário, sendo as longas exposições um factor técnico incontornável, a nitidez é precisamente o aspecto que mais sofre com isso, ainda que tal dependa profundamente da maior ou menor optimização do estenopo (do furo) em relação à "distância focal".
Este é um dos aspectos em que a fotografia pinhole faz toda a diferença relativamente a outras técnicas fotográficas, tirando partido do movimento e das exposições longas para recriar uma percepção do espaço e do tempo absolutamente singulares - como aquela do primeiro impacto da rua, quando saímos de casa pela manhã num dia de sol...

(1) Henry Cartier-Bresson, O instante decisivo in O imaginário segundo a natureza, Ed. Gustavo Gili, Barcelona.

imagem: Rui Cambraia

5.11.08

Pinhole sem rede

Uma câmara pinhole artesanal carregada com papel fotográfico, só realiza uma imagem de cada vez. Por essa razão, a generalidade dos praticantes de fotografia estenopeica só criam as suas imagens nas proximidades de um laboratório fotográfico. Isso permite-lhes realizar um maior número de imagens em cada sessão, e em caso de erro pode-se tentar de novo imediatamente.


S. Mamede, câmara pinhole artesanal, 50 '' de exposição.

Nesse sentido, viajarmos 11 km com uma câmara pinhole carregada dentro do carro, é o equivalente a uma pequena aventura fotográfica. A auto-responsabilização é maior; a atenção aos detalhes técnicos; a escolha precisa do melhor ponto de vista... tudo isso constitui uma experiência fotográfica mais rica, e se os resultados forem bons, tudo resultará numa vivência muito gratificante. Contudo, se o resultado não for do nosso agrado também pode ser um pouco mais frustrante do que o habitual. Como em tantas coisas na vida, é preciso arriscar para petiscar.
Na fotografia acima, o resultado, não sendo mau, também não é totalmente satisfatório, uma vez que o objectivo era registar uma imagem do marco geodésico e da sua implantação no afloramento rochoso. Infelizmente a pontinha do marco ficou cortada, comprometendo assim o trabalho realizado...
Teremos de lá voltar para repetir a imagem... o que neste caso é óptimo, porque a Serra de S. Mamede é um lugar privilegiado em múltiplos aspectos. Ir lá, seja com que pretexto for (e se for para fotografar) é sempre um tempo bem empregue.

imagem: Rui Cambraia

4.11.08

Cidade sem carros

Uma cidade sem carros é uma visão extraordinária.
Os automóveis formam uma cortina, em parte estática e noutra parte em movimento, que nos impede de apreendermos a totalidade do espaço e dos volumes imóveis que nele se estruturam.
É uma revelação. Desvela-se uma certa harmonia, mesmo onde há desarmonia, porque se desvela um conjunto vivo de coisas que nasceram de outras coisas, um cenário habitado, ou desabitado, mas sempre uma paisagem...
Os automóveis são parasitas. Pólenes, fagulhas, sujidade ou poluição. Nunca geram harmonia excepto na cabeça de algumas pessoas.

Praça do Município, câmara pinhole artesanal, 60'' de exposição.

A fotografia pinhole tem uma particularidade: as coisas em movimento raramente ficam registadas na imagem - pessoas, automóveis. Se não fossem os carros estacionados, a fotografia pinhole conseguiria representar o espaço, a paisagem urbana, como se nada mais existisse no interior desse espaço ou dessa paisagem.
Na imagem acima não há carros na realidade (nem estacionados) porque, por ocasião de uma visita oficial a Portalegre, a polícia vedou este local ao trânsito. Uma oportunidade única para admirar a Praça do Município tal como seria no tempo das carroças, sem carroças...

imagem: Rui Cambraia